O primeiro episódio de "O Sexo e a Cidade" foi exibido nos Estados Unidos há 20 anos e eu sinto-me, oficialmente, velha. Nestes quase 15 anos de blog falei inúmeras vezes da série. Série essa que já vi umas 300 vezes, ao ponto de saber falas de cor e ter memorizado todo um conjunto de informação inútil. De quando em vez lá pego na primeira temporada e aí vou eu até à sexta, com o mesmo entusiasmo e emoção. Tenho os DVDs todos religiosamente guardados e sei que será uma daquelas coisas que passarei à minha filha, qual tesouro preservado ao longo de anos e anos.
Se calhar, à luz dos dias de hoje, muitos dos temas já não farão tanto sentido ou causarão um efeito "uau". A grande maioria das mulheres fala de sexo e de relações abertamente, sem pudores ou constrangimentos, mas há 20 anos ainda havia muito tabu para quebrar. E "O Sexo e a Cidade" teve um papel imprescindível nessa mudança de mentalidades. Foi uma espécie de "calma lá, que afinal as mulheres também podem questionar uma data de coisas". E não há mal nenhum em serem uma Charlotte, que sonha com o príncipe encantado, como não há mal nenhum em serem uma Samantha, que prefere coleccionar relações fugazes e estritamente físicas do que embarcar numa coisa mais estável e sentimental.
É óbvio que se trata de uma série, com todas as limitações que isso implica quando se tenta fazer uma transposição para a vida real. Aquelas mulheres vivem no centro do mundo, têm dinheiro, frequentam as melhores festas, os melhores restaurantes, as melhores lojas, compram Manolos como quem vai ali à Bershka, mas acho que isso também contribuiu para o sucesso da série. Todo esse lado aspiracional. Se é para sonhar, que seja para sonhar com uma mulher que vive em Manhattan, e não com uma que alugou um T-zero na Rinchoa. Mas apesar dessas enormes diferenças, depois há pontos de contactos que são transversais a milhões de mulheres, independentemente do estatuto social ou do sítio onde vivem. Toda a gente, de algum modo, acabou por se rever em alguma das dúvidas, fragilidades, experiências, medos ou conquistas daquelas quatro mulheres. E era isso que fazia com que, afinal, elas não estivessem assim tão distantes de nós.
Provavelmente, a série já estará um bocadinho datada. Miúdas de 18 ou 20 anos que comecem agora a ver "O Sexo e a Cidade" talvez já não se revejam em muitas das coisas que ali são faladas porque, para elas, esse caminho já foi feito. Já não é estranho falar de alguns temas, já há uma liberdade sexual muito maior, muitas talvez já não estejam viradas para a história do "temos de encontrar um grande amor". Mas eu continuo a achar que foi uma das séries femininas mais importantes, a que fez realmente alguma diferença. E, só por causa das coisas, vou vê-la outra vez, do princípio ao fim, em jeito de celebração do 20º aniversário.
Podem ler mais sobre este assunto neste artigo do Diário de Notícias, no qual botei faladura.










