Que Portugal é um país com poucos hábitos de leitura é coisa que já se sabia. Não faltam estatísticas a confirmá-lo. Uma das mais recentes diz que, no último ano, 42% dos portugueses compraram, em média, um ou dois livros. Não é brilhante, que não é. E desde que lancei a iniciativa "Pôr a Leitura em Dia" tenho recebido alguns comentários e mails que o atestam e que me preocupam um bocadinho. São muitas as pessoas que acham impossível ler um livro num mês. Ou que dizem não ter tempo. Ou não ter dinheiro. Ou que estão há um ano a ler o mesmo livro. Ou que não percebem como é que posso gostar de ler. Ok, está certo. Se calhar, para quem não tem hábitos de leitura frequentes, arrancar com as 800 páginas do Anna Karénina pode ser duro. É um livro denso, complexo, o facto de cada personagem ter dois ou três nomes diferentes também não ajuda mas, sinceramente, acho que muita gente desmotiva logo à partida ao olhar para o tamanho do calhamaço. E é pena, porque o livro é realmente bom. Para quem gosta de Eça de Queiroz vai encontrar ali parecenças no registo (apesar de eu achar que o Eça dá quinze a zero ao Tolstoi no que toca a ironia e sátira). Mas bom, vamos por partes:
Tempo para ler
Tal como tinha dito quando lancei esta iniciativa, percebi que o ano passado dediquei muito mais tempo à televisão do que à leitura. Pelas minhas contas, li uns dez livros, o que está longe de ser espectacular. Mas a oferta de séries e filmes é tanta e tão boa que é fácil uma pessoa desleixar-se com a leitura. Sobretudo quando se tem televisão no quarto. Não acho que o tempo dedicado às séries/filmes seja deitado ao lixo, muito pelo contrário. Há muita coisa boa e que merece ser vista. Mas sempre li e tenho pena de ter deixado esse hábito um bocadinho de lado. Quando é que eu leio, perguntam vocês. Ora bem, maioritariamente à noite. Durante o dia não tenho tempo para me refastelar no sofá e para me dedicar à literatura (com grande tristeza), por isso a coisa rende mais à noite (salvo seja). Mesmo que veja um filme ou um episódio de uma série, não me deito sem ler. Sou pessoa que adormece tarde (quase nunca antes da uma e meia, duas) e que não é facilmente dominada pelo sono, por isso consigo ler tranquilamente 40 ou 50 páginas sem começar a babar. Depois, aproveito também as viagens diárias de metro. Não são muito longas, mas dão para adiantar qualquer coisa. E como almoço muitas vezes sozinha, também sabe bem ter um livro por companhia. Não acredito em pessoas que dizem "não ter tempo para ler". Esse conceito não existe. O tempo arranja-se, nem que seja cinco minutinhos por dia. Como em tudo na vida, é uma questão de prioridades. E se, à partida, uma pessoa já não gosta de ler, é normal que ponha tudo e mais um par de botas à frente de um livro.
E como é que se lê um livro de 800 páginas em 30 dias?
Eu sei que ler sob pressão é uma chatice, mas acho que se impusermos objectivos torna-se mais fácil. Neste caso, e tratando-se de uma espécie de clube de leitura em que é suposto debater-se a obra em questão, tem de haver uma data limite, caso contrário em 2042 ainda haveria gente encalhada no segundo capítulo do Anna Karénina. E olhem que estou a ser bem fofinha ao dar um mês. Daqui para a frente entramos no ritmo de dois livros por mês. Neste caso, e para me disciplinar, dividi o número de páginas pelo número de dias que tenho para as ler. Não é uma imposição, é só uma orientação. Dá 24 páginas por dia o que, convenhamos, não é nada. Não sejam mariquinhas. E a verdade é que o livro é tão cativante que todos os dias leio muito mais do que isso. E apago a luz contrariada, porque queria ler mais, mas depois no dia a seguir é que são elas.
E o caro que os livros são?
Sim, é verdade, comprar livros não sai barato, dificilmente custam menos de 15 euros. Mas a sensação de ter um livro novo é assim para cima de boa. O cheiro a papel, as páginas todas direitinhas, a sensação de o estar a folhear pela primeira vez. Enfim, é bom. Mas há sempre outras opções. Por exemplo, pedir emprestado, encontrar versões gratuitas (e legais) na internet, comprar em alfarrabistas (havia um no Chiado onde me fartei de comprar livros) ou recorrer à biblioteca mais próxima. No trabalho da minha mãe havia uma biblioteca e, para aí até aos 13 ou 14 anos, penso que fui a cliente mais fiel. Adorava ir lá e ter aquilo tudo à disposição, livros que não acabavam. Podíamos requisitar um máximo de três livros e eu passava a vida a ir buscar e a devolver. Confesso que já há muitos anos que não entro numa biblioteca (até porque gosto de ter os livros, gosto deles enquanto objecto), mas parece-me uma opção muito viável.
Mas tu gostas mesmo de ler?
Gosto, gosto mesmo. E acho esquisito alguém não gostar, do mesmo modo que o meu homem acha estranho que eu, por exemplo, não goste de desporto. São gostos, diz que não se discutem, mas eu acho estranho, pronto. A verdade é que isto vem logo de infância. Os meus pais sempre me fomentaram o gosto pela leitura e, que me lembre, nunca foi um martírio. Horas da minha infância/pré-adolescência. foram passadas a ler A Anita, Os Cinco, Uma Aventura, O Clube das Chaves ou as Viagens no Tempo. Cada livro era lido e relido umas cinco vezes. Depois vieram livros como A Lua de Joana, O Diário de Anne Frank, ou os Diários de Adrian Mole. Acho que não há nada que nos desenvolva tanto a imaginação como a leitura. Adoro a sensação de estar agarrada a um livro (o nível de abstracção que se atinge é incomparável), de ser difícil conseguir parar de ler, de pensar que fecho o livro e as personagens lá continuam, na sua vidinha, até que eu vá ter com elas novamente. Depois também há a parte má, que é acabar um livro muito bom e sentir dor e pesar, pensar que nunca mais na vida se vai ler nada tão bom. E também há livros maus e penosos, claro, em que cada página é uma tortura. Pessoalmente, não sou de insistir. Se ao fim de vinte ou trinta páginas continuo a odiar, então siga e passemos a outro. Mas há tanta escolha, tantos autores, tanta variedade, que é impossível não se encontrar qualquer coisa que tenha a ver connosco.
Enfim, longe de mim estar aqui a tentar evangelizar-vos. Só queria explicar a minha visão e responder às muitas perguntas que me fizeram sobre este assunto. Acredito que nos vamos divertir com o "Pôr a Leitura em Dia" e que vamos todos descobrir belos livros. E, quem sabe, melhorar a média!