Sentado no banco de trás, o Mateus ia disparando perguntas em catadupa. Ainda mal tínhamos saído de Lisboa e eu já tinha ouvido:
- Mãe, está ali um escorrega, podemos ir? [não, Mateus, não vamos parar o carro para ires ao escorrega]
- Porque é que as mamãs ralham com os meninos? [porque às vezes os meninos portam-se mal]
- Vamos um bocadinho à escola? [não há escola, estamos de férias]
- Mãe, o que é que estás a fazer? [nada, estou só aqui sentada]
- Mãe, o que é que o pai está a fazer? [está a conduzir…]
- Vamos à praia? [não, hoje não]
- Já chegámos ao Algarve? [não estamos a ir para o Algarve]
- Mãe, o carro está a falar connosco! [é o GPS, amor]
Com uma semana de férias e sem grandes planos, decidimos que íamos dedicar uns dias a conhecer melhor Portugal, sobretudo o centro e o norte. É incrível que moremos num país tão pequeno e o conheçamos tão mal, por isso adoptámos o conceito de vá para fora cá dentro e partimos, assim sem grande rumo, apenas com os hotéis marcados. A minha única “exigência” era que não fosse um percurso muito urbano, apetecia-me muito mais campo do que cidade.
Ontem foi o primeiro dia e começou na BMW, que simpaticamente nos convidou a experimentar o novo X1. Enfiámos a tralha toda na mala gigantesca do carro e fizemo-nos à estrada. Com a hora de almoço a aproximar-se, deixámos a A1e apanhámos a A23, com a ideia de parar em Tomar. E lá íamos descansados da vida quando ouço um “estou a fazer xixi nas cuecas”. “Estás o quê???????????”. Sacana do puto, pá! Ordenei ao homem que parasse assim que conseguisse e saí do carro já a imaginar todo o cenário de terror que devia estar a passar-se na cadeirinha do Mateus. Afinal era bluff, não tinha feito nada, mas achei que era melhor não confiar demasiado na sorte e lá arranjei um cantinho no meio da rua para o miúdo se aliviar. Enquanto isso o homem ficou de volta do Tripadvisor, à procura de um restaurante em Tomar: “infelizmente a Casa das Ratas está fechada, mas há outros bons no centro”, garantiu-me. E foi assim que fomos parar ao Tabuleiro e a uma travessa de carne estufada que não estava nada do outro mundo mas que foi largamente compensada por uma parte de côco de babar.



Não ficámos muito tempo em Tomar, porque ainda tínhamos muitos quilómetros pela frente. O próximo destino era Seia, onde queríamos visitar alguns familiares. A caminho vimos as indicações para Miranda do Corvo e o homem começou com recordações de quando lá foi correr o Trilho dos Abutres. Falou-me das aldeias de xisto e achei que, já que ali estávamos, valia a pena ir espreitar. E então lá subimos até Gondramaz, uma aldeia incrível no meio do nada e um dos sítios mais bonitos onde já estive, com uma vista maravilhosa e um silêncio invejável. Era menina para ficar ali duas semanas a descansar o cérebro (até porque os telemóveis não têm rede, um sonho).










Enfiámos o nariz em todos os recantos e em todas as casinhas de xisto (fiquei com vontade de experimentar o hotel Mountain Whispers), o Mateus correu que se fartou, tirámos uma data de fotos e voltámos a enfiar-nos no X1 com destino a Seia. Pequena paragem só para dar um beijinho a uma tia e rumámos a Fornos de Algodres e ao Solar dos Cáceres, onde ficámos a dormir. Pelo caminho passámos por uma zona enorme devastada pelos incêndios e foi de partir o coração. O tamanho da área ardida era impressionante e dava dó ver tudo preto, milhares de árvores com os troncos carbonizados. Uma tristeza. Quando chegámos ao hotel foi só pousar as malas e seguir para o restaurante Unidos, uma recomendação local. De volta ao Solar - que é um sítio lindo e super tranquilo - aterrámos os três na cama, cansados de um dia com tanta coisa. Hoje, acordámos com os sinos da igreja, tomámos o pequeno-almoço junto à piscina e fizemo-nos à estrada para mais um dia.