Nova versão de Brida, by Paulo Coelho
Brida deteve-se à entrada. Uma voz fez-se ouvir na sua cabeça, comandada pela razão ou talvez pelo coração. “Não entres. A tentação é o primeiro dos pecados, mas resistir-lhe é um Dom, a maior das qualidades”. Ignorando os avisos do Além, empurrou a porta vigorosamente e entrou. Um imenso e colorido recinto acolheu-a. As luzes intensas obrigaram-na a fechar os olhos, mas rapidamente se habitou. “Ora bem, por onde é que vou começar?”. À sua frente, um mar de lojas parecia dizer-lhe “vem, vem”. Sentiu o Visa a fumegar no bolso e o descontrolo foi total! Excitada, começou a saltitar de entusiasmo, a pensar no que é que investiria o salário desse mês. Sacou de uma lista religiosamente guardada na carteira e começou a ler em voz alta: “Ora bem: óculos de sol Gucci, vestidinho Dior, carteira Fendi, óculos de sol Yves Saint Laurent, vestidinho Chanel, carteira Louis Vuitton, sapatinho Versace, sapatinho Dolce & Gabbana, sapatinho Kenzo. Parece-me bem”. Enquanto ponderava por onde começar, a tal voz voltou a assolá-la: “Escuta o teu coração. Ele conhece todas as coisas...e também todas as lojas! Contenta-te antes com uma Zara ou mesmo com a secção de roupa do Pingo Doce. Não desperdices. No poupar é que está o ganho e grão a grão enche a galinha o papo. Ah, e os cães ladram e a caravana passa.”. Não percebeu o sentido do último provérbio, mas também não se preocupou. Depois das compras havia de procurar uma dessas clínicas finíssimas e alegar um esgotamento ou uma depressão, as doenças mais “in” do momento. A voz, no entanto, era persistente, aguda e bastante irritante, via-se que estava a ficar nervosa: “Todos os caminhos vão dar ao mesmo lugar mas não os tentes percorrer ao mesmo tempo. Assim sendo, e tendo em conta que eu estou a acabar o meu turno, vê se te despachas que eu odeio estar em centros comerciais ao Domingo, sobretudo quando está a dar bola na televisão”. Brida ignorou as iluminadas palavras e começou a sagrada peregrinação pelas lojas da moda. As sábias teses do mestre Lacroix, com quem tinha feito um workshop intensivo sobre “A Arte de Bem Esbanjar” vieram-lhe à cabeça: “A vida perde o sentido quando o dinheiro acaba e não podemos comprar os trapinhos que tanto gostamos”. Um novo alento invadiu-a: “Ele aceitou-me como discípula, não posso desiludi-lo!”. E assim foi gastando, gastando, os sacos amontoavam-se! A sua conta bancária descia mas a satisfação aumentava, só de pensar em todas as festas que frequentaria com os novos modelitos!
Ao fim de um dia de compras, já cansada, Brida parou e, finalmente, deu-se conta da gravidade da situação. “Bolas, em vez de dois casacos Gucci bem podia ter comprado aquele da Givenchy que me ficava a matar”. Desesperada, tentou invocar a voz que a tinha perturbado ao longo do dia, mas em vão. Em vez dos sapientes e protectores conselhos, na sua cabeça ecoou uma mensagem gravada: “A voz que tentou contactar está de momento desligada. Por favor, tente mais tarde”. Moral da história: “A consciência e a razão são as suas melhores conselheiras, são elas que guiam a sua vida, os seus ideais...mas só das nove às cinco”.
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