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quinta-feira, abril 29, 2004
Um dia na boca de Paulo Portas

10h00
O dia começou cedo! Acabaram de me tirar do pacote onde vivi desde sempre, mas já estou desejosa de voltar lá para dentro. Anos e anos a pensar em quem é que teria o prazer de me saborear, de me apertar na sua boca, e calhou-me logo este gajo na rifa. Sou uma pastilha de classe, com pedigree, merecia passar os meus últimos momentos de vida numa cavidade bocal mais distinta…assim de um Saramago, de uma Cristina Caras Lindas ou de um Marcelo Rebelo de Sousa que, assim como assim, sempre é um gajo da televisão e dos livros e do surf e das aulas e dessas coisas todas. Não é que aqui se esteja mal, pronto, ele até é lavadinho e este dente de ouro aqui atrás sempre dá outro ar a isto, quando ele fecha a boca há sempre uma luz de presença.

12h00
Estou mal disposta. Estou a ser mascada com tanta violência que já nem sinto o corpo, dói-me tudo. Não sei muito bem onde é que estamos, mas lá de fora ouve-se qualquer coisa como uma banda, muitos assobios e, de quando em vez, consigo vislumbrar uma data de gente com cravos na mão. Acho que o Paulo está nervoso, de vez em quando murmura qualquer coisa sobre enfiar o 25 de Abril num sítio qualquer, não sei ao que é que se refere. Se ao menos parasse de me mastigar enquanto fala, mas não, teima em trincar-me de boca aberta! É que isso ainda me cansa mais, porque tenho que fazer uma ginástica enorme para não ser projectada daqui para fora. Só não saio daqui porque ouvi dizer que a Odete Santos também cá está. Mal por mal, deixem-me estar onde estou.

12h30
Estou de pernas para o ar, colada nas costas de uma cadeira qualquer. O Paulo pôs-me aqui enquanto dá uma entrevista a uma televisão. Na minha cadeira, ocupada pelo presidente da república, ouvi-o dizer “esta bicha faz tudo para aparecer”.

12h45
De volta à boca do Paulo. Já não me estava a sentir bem. Seja lá o que foi que estávamos aqui a fazer já acabou. Vou aproveitar para me encostar aqui a este molar a descansar um bocado.

14h00
Bem, acabei de ter um pesadelo horrível! Sonhei que tinha sido engolida e que ficava o resto dos meus dias colada a um intestino grosso a ver passar comida deglutida, que nojo! O Paulo está muito quieto, não fala, não me mastiga… vou tentar engasgá-lo para ver se ele abre a boca e consigo ver alguma coisa.

15h00
Nada de novo. Afinal estava deitado na cama a ler a Mulher Moderna.

16h00
Pronto, quando eu esperava que ele se estivesse esquecido deste momento de tortura, ele decidiu ir almoçar! Se há coisa que eu gosto é da privacidade do meu lar, odeio ser invadida por um bando de legumes, e pedaços de carne e batatas fritas que entram por aqui e acham que é tudo deles. Geralmente até sou pacífica, colo-me ao céu da boca e tento não incomodar, mas hoje fiquei possessa. Então não é que um bocado de bacalhau Pascoal me começou a provocar e a chamar “pastilhinha de merda”? Eu emendei-o, disse que era de menta, mas ele foi mais longe e mandou-me ir levar no pacote, quando sabe muito bem que eu já não posso voltar para o meu pacote de origem. Quer dizer, é brincar com os sentimentos das pessoas! Enervei-me de tal maneira, eu que até nem posso, que tenho a elasticidade muito alta, que saltei para cima do gajo com tamanha violência que o Paulo se viu obrigado a meter os dedos na boca para nos separar. Acabei de castigo colada na beira do prato.

17h00
Já cá estou de novo, começo a ficar farta desta história do sai e entra! Se eu sou a pastilha dele, o mínimo que ele pode fazer é defender-me! Tem passado a última hora ao telefone, com uma tal de Zeca, a falar da semana da moda em Paris, do sítio onde se depila e se este ano o que está a dar é meia de rede ou a opaca. É estranho, estava convencida que ele estava a falar com uma amiga, mas às tantas disse: “ai, melher, tu desliga mas é o telefone que se a tua mulher nos apanha estamos feitas! Sabes bem que a Betty é gaija para te tirar as jóias, a casa e o carro e te pôr na rua com uma mão na frente e outra atrás! Como nós gostamos!!”. E pronto, desligou.

18h00
Estou no duche com o Paulo. Estamos a ficar íntimas!!

20h00
Não sei o que é que se passa aqui, mas o Paulo está irreconhecível. Olhei lá para fora e vi-o reflectido num espelho. Ainda estou em estado de choque mas vou tentar reproduzir o que vi. Ora portanto, ele está de vestido vermelho, salto alto compensado, peruca loura e com uma maquilhagem mais acentuada que a da Chiquita em dia de espectáculo. A empregada entrou aqui a dizer: “senhor Paulo, tem uma chamada” e ele quase bateu na desgraçada. “Catherine, já te disse que a partir das oito da noite o meu nome é Catherine!! Estúpida, pá!”.

01h00
As minhas últimas horas de vida foram demasiado chocantes para serem reproduzidas. Neste momento estou ao abandono numa sarjeta do Parque Eduardo VII e espero pelo fim.

10 comentários:

Summer disse...

Mas alguém me explica porque é que não há nenhum comentário a este genial quiça fabuloso post??!! :D made my day

beijo*

Unknown disse...

genial:)

quase que choro d me tanto rir:)

estou a começar pelo inicio, estou a adorar:)

Obrgd pipoca por me dares que fazer nestas manhas tão secantes no meu posto de trabalho:D

Johnny disse...

Este post é de ir às lágrimas.

Marta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo disse...

post muito engraçado!

Galopim disse...

Epá, tão genial! xDD

Galopim disse...

Epa, genial! xD

Anónimo disse...

De todos os posts que li, este foi de todos o melhor!

Anónimo disse...

Espectacular ! Parabéns!
Ganda Maluca!

Sandra
Bjs

Ana Lima disse...

só fui descobrir isto em 2017 mas continua com piada :D

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Teorias absolutamente espectaculares

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